22/12/2017 19h40 - Atualizado em 22/12/2017 20h09

            De acordo com publicação da Agência Brasil em outubro de 2013, a agricultura deve ser o setor da economia mais afetado pelas mudanças climáticas ao longo do século 21 – dados divulgados pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), na segunda parte do primeiro relatório nacional. De acordo com o estudo, o prejuízo do agronegócio com problemas climáticos pode chegar a R$ 7,4 bilhões em 2020 e R$ 14 bilhões em 2070. Até 2030, a produção de soja, por exemplo, pode ter perdas de até 24%.

            De acordo com a ANIPLA (Associação Nacional da Indústria para a Proteção das Plantas), aproximadamente 12% (cerca de 1.5 Bilhões de ha) da superfície de terra do mundo (13.4 Bilhões de ha) é atualmente utilizada na produção agrícola (terra arável e terra permanentemente cultivada). Esta área representa pouco mais de um terço (36%) da quantidade de terra que se estima ser adequada para a produção vegetal. Desta forma, o grande desafio é aumentar a produtividade da terra já cultivada. Este incremento passa pelo manejo de plantas daninhas, pragas e doenças das plantas cultivadas.

            Um dos métodos de manejo é a aplicação dos agroquímicos. Na maior parte dos casos os produtos são aplicados através da pulverização. A pulverização pode ser definida como a quebra de líquido em gotas até o tamanho necessário e o seu objetivo é distribuir o líquido de modo contínuo, uniforme e na quantidade necessária nos alvos.

            As gotas são geradas por pontas de pulverização, que são um dos principais componentes dos pulverizadores. Existem no mercado vários fabricantes e modelos de pontas disponíveis para a distribuição dos produtos. Cada modelo gera gotas de tamanhos diferentes e se considerarmos as gotas geradas por uma única ponta, também apresentarão diâmetros distintos.. A este grupo de gotas geradas dá-se o nome de espectro de gotas.

            Existe um padrão internacional apresentado pela ASABE (American Society of Agricultural & Biological Engineers), norma S572.1, que define a categorias de tamanho de gotas e o DMV (Diâmetro Médio Volumétrico). O DMV é um valor onde 50% do volume ou massa de líquido pulverizado são aplicados em gotas maiores deste valor e 50% em gotas menores do que este valor.

            As recomendações de rótulos e bulas são muito superficiais em relação à recomendação das gotas em função do tipo de produto a ser aplicado. É comum, por exemplo, encontrar recomendações de herbicidas de contato a serem aplicados em grandes volumes de massa foliar com as mesmas especificações do que pré-emergentes a serem aplicados diretamente nos solos.

            No campo a recomendação geral é para “molhar bem” nas aplicações foliares e o foco sempre está no volume de calda a ser aplicado (l/ha). As regulagens preconizam alcançar as recomendações de volume de calda desejada. Boa parte dos usuários ajusta a pressão de trabalho para adequar o volume à velocidade de operação. Máquinas dotadas de controladores eletrônicos fazem estes ajustes automaticamente.

            Poucos levam em conta o tamanho de gotas gerado nas pulverizações e são elas que levam o principio ativo e promovem sua distribuição no alvo, que pode ser o dossel do plantio, as áreas extremas das plantas, o solo ou ainda vários desses simultaneamente.

            Como foi dito, o espectro de gotas é formado por partículas de diferentes tamanhos e o modo como os produtos chegarão ao alvo dependem de sua trajetória após seu lançamento. Gotas grandes ficam sujeitas a força de atração da gravidade e gotas pequenas ficam sujeitas as movimentações das massas de ar no entorno das pulverizações que são definidas pelas condições meteorológicas.

            O ótimo de uma aplicação é promover o máximo de depósito do principio ativo no alvo com o mínimo de contaminação ambiental. Todo o produto que não chega ao alvo é definido como deriva.

            Gotas grandes normalmente se chocam com as partes externas das plantas e não penetram nas folhagens. De acordo com o volume de calda aplicado estas partículas se juntam de modo que a superfície das plantas não consegue retê-las, escorrem e saem do alvo. A este fenômeno dá-se o nome de endoderiva.

            Gotas pequenas, menores do que 200 ou 150 µ têm mais facilidade de penetrar na folhagem e aumentar a cobertura do alvo. Contudo, em condições climáticas adversas, podem se desviar do objetivo ou permanecerem em suspensão no ar até evaporar. É a chamada exoderiva.

            A deriva é responsável por causar danos ambientais e econômicos. Entre os danos ambientais destacam-se exposição de pessoas, propriedades, fauna, flora e contaminação de mananciais.

            Do ponto de vista econômico podemos considerar que ao adquirir os agroquímicos, faz-se um dispêndio e para obter o máximo benefício dos tratamentos, os produtos precisam estar no alvo e não no ar ou escorrendo para locais não desejados. Se os resultados de campo têm sido satisfatórios mesmo com a ocorrência de deriva, pode-se concluir que se não houvesse deriva seria possível economizar com a dosagem dos produtos ou por outro lado obter melhor eficácia dos tratamentos.

            No estado do Paraná, segundo a ADAPAR (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná) entre 2009 e 2012, foram investigados 88 casos de deriva e desses 47 geraram processos administrativos, instaurados a partir dos autos de infração. Estes resultados têm servido como provas em ações de perdas e danos contra operações de má qualidade.

            De acordo com a classificação ASABE, espectros de gotas considerados médios, apresentam então aplicações onde 50% do volume aplicado ou das doses aplicadas com alto potencial de perdas. Em condições adversas de temperatura, umidade relativa do ar e velocidade de vento é possível perder até metade das doses aplicadas e comprometer o meio ambiente.

            Para reduzir as perdas alguns pontos devem ser observados:

  • Ler e seguir as instruções de bula e rótulo dos fabricantes de cada agroquímico;
  • Monitorar as condições ambientais durante as aplicações e operar com gotas médias ou menores apenas quando o vento estiver entre 3 e 10 km/h, a temperatura estiver abaixo dos 27°C e a umidade relativa do ar estiver acima de 70%, escolhendo os melhores períodos do dia;
  • Manter os equipamentos de pulverização em bom estado de uso;
  • Capacitar os operadores para a realização de um trabalho consciente;

           Boa parte dos fabricantes de pontas de pulverização fornece informações a respeito do espectro de gotas gerado nas aplicações. Quando se utiliza apenas o aspecto de DMV, temos somente uma idéia do potencial de deriva. Quando o DMV for menor de 200 µ, sabemos que há risco de perder metade da dose aplicada por exoderiva, porém quando este é maior que este valor, não se sabe quanto do produto pulverizado está sendo perdido. Assim, procurar fornecedores que ofereçam informações mais completas diminui o risco de perdas expressivas no campo, uma vez que as decisões de uso serão mais precisas.

            Aumentar produtividade nas áreas agricultáveis, de modo sustentável e competitivo passa por um controle mais preciso de perdas no campo, entre elas a deriva.

 

Rudolf Woch

Consultor em manejo de plantas daninhas e tecnologia de aplicação em Silvicultura

Diretor Técnico Apoiotec