22/12/2017 20h09 - Atualizado em 26/03/2019 16h25

Na agricultura moderna, o uso de defensivos agrícolas vem sendo uma importante ferramenta de manejo e produção. O cenário com plantas daninhas resistentes e a ocorrência de novas pragas e doenças, aliadas à preocupação com a manutenção da segurança das pessoas envolvidas nas aplicações e proteção do meio ambiente, exigem que novas tecnologias sejam adotadas.

A tecnologia empregada nas aplicações precisa assegurar que o máximo do principio ativo chegue a seus alvos. Para isso, o controle da deriva é fundamental. Em uma definição simples, deriva é todo o produto que saiu da máquina, mas não chegou ou não se manteve no alvo. É possível classificar a deriva em dois grupos: endoderiva, quando ocorre dentro das áreas alvo, normalmente com escorrimento das caldas aplicadas no alvo por uso de volumes muito altos de aplicação ou gotas muito grandes e a exoderiva, quando ocorre fora das áreas alvo, quando os produtos são levados para fora das áreas alvo, se movendo de acordo com o movimento do ar, ocorrem por volatilização e por arraste de gotas pequenas pelo vento, por exemplo.

Dois grupos de fatores interferem na deriva: a tecnologia de aplicação empregada, como espectro de gotas gerado na pulverização, altura de aplicação e velocidade de operação, e condições climáticas como vento, temperatura e umidade relativa do ar.

Em condições de temperaturas altas e umidades relativas baixas ocorre a evaporação dos componentes voláteis da calda de pulverização e gotas pequenas desaparecem antes de chegar ao alvo.

A pulverização tem por objetivo a distribuição dos agroquímicos de um modo uniforme, contínuo e na quantidade necessária. Para que este objetivo seja atingido é preciso que todas as etapas do processo sejam controladas. Desde as condições de homogeneidade e estabilidade das caldas preparadas passando pela seleção de pontas de pulverização e espectro de gotas gerado até manter os ingredientes ativos nos alvos.

Os adjuvantes vêm sendo estudados e desenvolvidos como ferramentas que podem auxiliar em várias etapas dos processos discutidos.

Adjuvantes são produtos usados junto com os defensivos para auxiliar sua ação e/ou modificar as características físicas e/ou químicas das caldas de pulverização.

Na formulação dos produtos comerciais os fabricantes incluem adjuvantes para melhorar características como estabilidade, solubilidade, ph, proteção contra fotodegradação, etc. Contudo, em função das muitas e complexas variações de situações encontradas no campo, não é possível que todos os atributos desejáveis sejam incorporados nas formulações e embalagens dos produtos comerciais. Deste modo, a adição dos adjuvantes nas caldas de pulverização tem sido um diferencial na obtenção de melhor eficácia das aplicações e tratamentos fitossanitários.

Os adjuvantes podem ser classificados em ativadores e úteis.

O primeiro grupo diz respeito à atividade do agroquímico, interferindo na penetração e absorção dos produtos nos alvos. Podem influenciar nas estruturas da cutícula de plantas, aumentar as rotas de penetração dos ativos nas plantas, aumentar o tempo de biodisponibilidade dos ativos.

Os úteis, por sua vez, são facilitadores no processo de aplicação. São usados para reduzir os efeitos negativos e não influenciam diretamente na eficiência do agroquímico.

Em termos gerais é possível considerar os efeitos dos adjuvantes em 4 situações:

  1. Na mistura de tanque
  • Compatibilizantes: reduzem a tensão superficial entre dois líquidos imiscíveis proporcionando a formação de emulsões. Deste modo, é possível compatibilizar o uso de fertilizantes e defensivos ou misturar dois ou mais químicos nos tanques de pulverização.
  • Condicionantes: em geral são produtos que visam melhorar a qualidade da água a ser utilizada na calda de pulverização, são indicados na ocorrência de água dura ou quando há íons de metais na água, como Fe3+, Fe2+, Zn2+, Mg2+, Na+, Ca2+, por exemplo, que podem reagir com os ingredientes ativos formando precipitados e perdendo a eficácia.
  • Dispersantes: evitam a aglomeração de partículas, melhorando a estabilidade das caldas. Muito utilizados com pós molháveis.
  • Acidificantes: o ph das soluções nas caldas de aplicação podem induzir a inativação ou degradação de ativos. Em geral são diluídos soluções de ácidos fortes que abaixam rapidamente o ph da calda.
  • Tamponantes: causam na solução resistência a mudança de ph. Cada produto tem uma faixa ótima para manter sua estabilidade e eficácia. O uso de tamponantes é importante porque muitos produtos podem sofrer hidrólise e perder sua eficácia quando preparados fora das faixas ideais de ph.
  • Anti-espumantes: são produtos que reduzem a formação de espuma e tem grande poder destrutivo de espumas e bolhas em caldas já preparadas. A formação de espuma nos tanques dificulta as operações de preparo de calda com o escorrimento de solução para fora dos tanques e prejudica a limpeza dos pulverizadores.
  1. No processo de aplicação
  • Controladores de deriva ou retardantes: são produtos que alteram a viscosidade da calda. A viscosidade expressa a resistência do fluido ao fluxo. Quanto maior a viscosidade maior a resistência.

Estes produtos interferem na formação do espectro de gotas, reduzindo a formação de gotas pequenas, que são mais sujeitas a deriva.

  1. Efeitos no alvo
  • Espalhantes: reduzem a tensão superficial, reduzindo o ângulo de contato entre as gotas e a superfície do alvo, aumentando o molhamento e a superfície coberta com a calda aplicada.

Herbicidas de contato precisam apresentar altas coberturas do alvo para funcionar adequadamente. Inseticidas de ingestão precisam estar disponíveis na maior superfície possível para a ingestão por parte dos insetos.

  • Umectantes: têm basicamente efeito de redutores de evaporação. Com isso, a permanência dos herbicidas na forma disponível para absorção é aumentada.
  • Depositantes: são produtos que interferem na viscosidade, na tensão superficial e na energia de colisão das gotas com os alvos, aumentando o depósito dos produtos nos alvos ou em diferentes partes dos alvos, mas sem alterar o espectro de gotas gerado.
  1. Difusão dentro da planta
  • Adesionantes: tem efeitos na propagação e biodisponibilidade de ativos nos alvos
  • Penetrantes: interferem alterando a cera da cutícula das folhas, aumentando o molhamento e favorecendo rotas alternativas de penetração. Em geral as ceras epicuticulares representam maior resistência à penetração dos ativos. O uso de adjuvantes lipofílicos auxilia na entrada dos ativos nas plantas. Como exemplo pode-se citar os óleos minerais e vegetais.

Como se vê existem várias propriedades e usos diferentes para os adjuvantes. Neste ponto é preciso entender que não existem produtos que possam oferecer todos os efeitos benéficos em um único frasco.

É preciso identificar quais os problemas encontrados na rotina dos tratamentos e quais as melhores alternativas estão disponíveis no mercado para atendê-las.

Entender corretamente o que é oferecido no mercado é fundamental para obtenção dos melhores resultados. Como exemplo, é possível citar os óleos usados como adjuvantes nas pulverizações. Os óleos muitas vezes são tratados como iguais nas negociações, contudo são classificados em 5 categorias:

  • Óleo mineral concentrado: contém entre 5% e 20% de surfactante e um mínimo de 80% de óleo altamente refinado;
  • Óleo mineral emulsionável: contém até 5% de surfactante e o restante de óleo altamente refinado;
  • Óleo vegetal concentrado: contém entre 5% e 20% de surfactante e um mínimo de 80% de óleo vegetal;
  • Óleo vegetal modificado: óleo vegetal quimicamente modificado;
  • Óleo vegetal modificado concentrado: contém entre 5% e 20% de surfactante e um mínimo de 80% de óleo vegetal modificado.

Não é possível esperar respostas iguais com uso de substâncias de origem e composição diferentes.

Existem produtos disponíveis no mercado com múltiplas funções, ou seja, podem conter agentes quelatizantes, redutores de ph, adesionantes, condicionantes, aumentar a viscosidade e melhorar a penetração via cutina das folhas. Outros, contudo, como os fertilizantes líquidos a base de nitrogênio, apresentam algumas características adjuvantes como redução da tensão superficial, aumento da superfície de contato e pode auxiliar alguns herbicidas na penetração dentro das plantas, mas tendem a funcionar do modo muito específico e não devem ser usados de modo generalizado como se resolvessem todos os problemas.

No Brasil ainda não existe um processo regulatório para tratar desse assunto, embora algum movimento tenha sido observado nesta direção nos últimos anos. Assim, os adjuvantes são ferramentas importantes como auxiliares no aumento da eficácia dos tratamentos fitossanitários e podem contribuir para redução dos impactos ambientais e melhoria da segurança, mas sua indicação e uso precisa ser cautelosa e monitorada por pessoas e empresas qualificadas.

 

Rudolf Woch

Consultor em manejo de plantas daninhas e tecnologia de aplicação em Silvicultura

Diretor Técnico Apoiotec